Por que investir com constância é muito mais eficiente que tentar acertar o “timing”

O meu primeiro contato com investimentos em ações foi através da análise técnica, ou análise gráfica, que é o estudo que tenta prever os movimentos das ações utilizando-se do histórico delas por meio dos gráficos.

Em 2008, por influência dos meus pais, que já investiam em fundos de investimentos em ações, eu comecei a me interessar pelo assunto. Mas, curioso como sou, queria algo mais. Queria aprender a escolher as minhas próprias ações e decidir quando comprá-las e quando vendê-las.

Foi aí que conheci os gráficos, a análise técnica, que tem como pressuposto básico comprar mais barato (nas baixas) e vender mais caro (nas altas), ou seja, achar o melhor timing de entrada e de saída.

Mais eu ainda não estava satisfeito.

Percebi que esse negócio de comprar nas baixas e vender nas altas não estava dando muito certo.

Muitas vezes “levava um stop” (vender a ação num preço que você determina para evitar maiores perdas), ou vendia muito cedo, colocando o lucro no “bolso”, achando que logo logo iria cair e eu compraria mais barato novamente.

Mas a realidade não era bem assim.

Frequentemente a ação voltava a subir e eu estava com o dinheiro “parado” (líquido), esperando cair, para comprar de novo.

Ficar líquido, esperando “oportunidades”, é muito comum para grafistas. E isso me incomodava. Pois percebia que as ações não se comportavam como os gráficos “previam” e eu, constantemente, estava líquido quando o mercado estava se desenvolvendo e crescendo na minha cara.

Foi aí que resolvi estudar uma outra escola: a análise fundamentalista.

Então, em 2014, comecei a entender mais sobre as empresas. Passei a analisar a geração de caixa, os lucros, as dívidas, etc. ou seja, aprendi a ler os seus balanços.

Foi daí que os verdadeiros resultados começaram a aparecer.

Diferentemente da análise técnica, que tem uma pegada mais de curto e médio prazo, de “procurar” topos e fundos, a análise fundamentalista tem visão de longo prazo, de ser sócio das empresas.

Minha tática mudou de tentar comprar nos fundos e vender nos topos, ficando muito tempo líquido, para investir com constância.

Faça chuva ou faça sol estou investindo, com foco em boas empresas, não em “bons” preços.

E isso faz toda a diferença.

Essa é, comprovadamente, a melhor maneira de se fazer patrimônio a longo prazo.

A história de Sue, Jim e Tom

No livro A Psicologia Financeira, de Morgan Housel, o capítulo 6 (Devagar e Sempre) fala sobre a importância da constância.

Vou redigir uma pequena história, tirada da obra:

Vejamos o que aconteceria se você economizasse 1 dólar por mês de 1900 a 2019.

Você poderia investir aquele 1 dólar em qualquer bolsa de valores dos Estados Unidos todos os meses, faça chuva ou faça sol. Não importa se os economistas estão alardeando que há uma recessão a caminho ou que o mercado de ações vai despencar. Você simplesmente continua investindo. Vamos chamar a investidora que adota essa postura de Sue.

No entanto, investir durante uma recessão pode ser assustador demais. Então, talvez você invista seu 1 dólar no mercado de ações quando a economia não está em recessão, venda tudo quando ela está em recessão o guarde o seu 1 dólar mensal em dinheiro, e invista tudo de volta no mercado de ações quando a recessão terminar. Vamos chamar esse investidor de Jim.

Ou, talvez, leve algum tempo até que uma recessão o assuste, e depois mais algum tempo para recuperar a confiança antes de voltar ao mercado. Você investe 1 dólar em ações quando não há recessão, vende as ações seis meses após o início de uma recessão, e volta a investir seis meses depois do fim dela. Chamaremos esse investidor de Tom.

Quanto dinheiro esses três investidores teriam ao fim desse período?

Sue teria 435.551 dólares

Jim teria 257. 386 dólares

E Tom teria 234.476 dólares

Sue venceria com folga.

Foram 1.428 meses entre 1900 e 2019. Pouco mais de trezentos deles sofreram recessões. Portanto, ao manter a calma quando a economia estava em recessão (ou perto de uma), o que representa apenas 22% do tempo, Sue termina com quase 75% a mais que Jim ou Tom.

Precisa falar (escrever) mais alguma coisa?

Vejamos um outro estudo, que mostra os resultados de investidores do mercado de ações americano de 1926 a 2013.

A primeira barra revela o resultado de um investidor que comprou sempre no menor preço todo ano.

A segunda barra é de um investidor que comprou sempre no primeiro dia do ano, independentemente de como estivesse o mercado.

O terceiro investiu sempre no preço mais caro de cada ano.

E o último manteve os seus investimentos aplicados em títulos do tesouro.

Sabemos que tanto a primeira quanto a terceira situação são impossíveis.

Para quem já investe em ações sabe que acertar o “cú da mosca”, ou seja, comprar na mínima, é impossível. Isso não existe. O mesmo vale para a situação de vender na máxima, no preço mais alto.

Então, tentar acertar os fundos e topos do mercado, só vai lhe causar perda de tempo, estresse e frustração, ao perceber que o mercado não se comporta como você “prevê”.

Além disso, quem tenta acertar o timing passa boa parte do tempo líquido, esperando oportunidades, e isso pode lhe trazer prejuízos (ou diminuir ganhos).

Vejamos:

Fonte: Site Bastter.com
Fonte: Site Bastter.com

O gráfico acima mostra um investimento hipotético de $10.000 investidos no S&P 500 (índice que representa as 500 maiores empresas americanas) de 01/01/1980 a 31/03/2020.

A primeira barra revela o resultado de quem permaneceu investido durante todo esse tempo. A segunda mostra o resultado de um investidor que ficou de fora do mercado (líquido) nos cinco melhores dias. A terceira, de quem ficou líquido nos dez melhores.

É visível o quanto tentar acertar o timing de entrada e de saída, e ficar líquido esperando esses momentos, pode causar perdas ou diminuir bastante os ganhos.

Apesar de esses estudos serem nas bolsas dos EUA, o mesmo vale para o mercado brasileiro.

Conclusão

O preço a se pagar pelos resultados a longo prazo é a volatilidade. É saber que mercado de renda variável passa por momentos de perdas e varia, também, para baixo.

E se não aguentar pagar esse preço e investir com constância, faça chuva ou faça sol, nas altas e nas baixas, os melhores resultados nunca chegarão.

Portanto, pare de tentar adivinhar os melhores momentos para comprar ou vender, pois isso é impossível, aceite que o mercado é altista no longo prazo, invista com constância em boas empresas e espere. Espere!

Tenha paciência que os resultados chegarão e seja rico você também!


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